O Medo da Verdade.
M Bento, 04.11.07
«É o medo - respondeu o Cristo. - Todos têm medo de ti.
- De mim?
- De ti, Don Camilo. E todos te odeiam. Viviam agasalhados e tranquilos no casulo da própria cobardia. Sabiam a verdade, mas ninguém os podia obrigar a saber, porque ninguém dissera publicamente essa verdade. Tu procedeste e falaste de tal modo, que eles agora têm de saber a verdade. E por isso te odeiam e têm medo de ti. Vendo os teus irmãos obedecerem, como carneiros, às ordens do tirano, tu gritas: «Acordai do letargo, olhai as gentes livres; comparai a vossa vida com a das gentes livres!» E os teus irmãos, em vez de te ficarem reconhecidos, odeiam-te e, se puderem, matam-te, por tu os obrigares a tomar consciência daquilo que eles já sabiam mas que, por amor à doce vida, fingiam não saber. Eles têm olhos mas não querem ver; têm ouvidos mas não querem ouvir. São cobardes, mas não querem que ninguém lhes diga que o são. Tu tornaste pública uma injustiça e colocaste o povo neste grave dilema: ou calar e aceitar a prepotência, ou não a aceitar e falar. Era tão cómodo fingir ignorar a prepotência! Estás pasmado com tudo isto?»